quinta-feira, 27 de março de 2008

A IMPOSSIBILIDADE DO ANARQUISMO - Parte 1

No vernáculo, quando se fala em “impossibilidade” pensa-se no
improvável, no irrealizável no plano material, ainda que “possível”
no plano das Idéias, da vontade, da aspiração política.
Nos sistemas de governo, onde as decisões são tomadas de cima
para baixo, muitos daqueles que se julgam esclarecidos se sentem
sob uma opressão, que mis que angustiante é castradora. Então
criam o Ideal. Como mudar a minha vida? Que logo se estende para
Como salvar o mundo?
O Anarquismo é um desses sistemas de Ideais. Quer mudar a nossa
vida e o mundo. Pretensioso, ousa basear seu “mundo ideal” na
liberdade humana. Mas, é de se pensar o que significa essa “liberdade”.
Existe liberdade? Somos livres ou somos condicionados? Somos livres
para quê? Somos livres de quê? Se a liberdade “tem limites” é ainda
liberdade? Ou a liberdade é sempre limitada? Contradição de termos?
Você pode desejar mil mulheres (ou mil homens), mas precisa esperar
que elas (ou eles) te desejem. Caso contrário, se forçar o desejo do
outro (se violentar o outro) estará colocando a sua ‘liberdade’ acima
da ‘liberdade do outro’ (delas ou deles).
A liberdade em relação a . Livrar-se de. Suprimir compromissos, família,
emprego, colegas, amigos. Mas a “liberdade negativa” apenas leva ao
isolacionismo, ao egotismo, a misantropia e ao niilismo.
Ou a verdadeira liberdade seria a Inexistência de Deus? Assim o ser
humano seria demasiadamente humano, sem dever nada ao Grande
Outro, ao assumir as responsabilidades sobre suas ações. (final, não
foi Deus quem jogou a bomba atômica...)
O problema da liberdade é se o ser humano livre das amarras vai ser
mesmo um “bom menino”. A premissa de que o homem é bom faz
sentido? O Homem é bom ou mau? Discussão superada: vide Nietzsche.
“Bom” e “mau” são conceitos. Queremos saber se o ser humano é
naturalmente egoísta e agressivo. Julgamos que sim. Não é um, é
egocêntrico. O centro do mundo é o meu umbigo.
A auto-destruição. O ser humano não é capaz de cuidar bem
nem de si mesmo. Censura e golpeia a si mesmo. Bebe, fuma,
se droga. Sabe que é prejudicial e continua fazendo. Quem não
conhece até médicos que fumam? Ou mocinhas que transam
sem camisinha? Assim, o impulso de destruição não poupa nem
o Eu – imagine então o que faz aos outros!
As guerras, por exemplo. O anarquismo julga acabar com as
guerras. Mas precisaria fazer uma guerra para acabar com a
guerra! Violência para ‘apaziguar’ a violência! O pacifismo é
mais uma crença de messianistas, arautos da ‘boa-vontade
humana’. Outra abstração.
Segundo o sociólogo italiano Pareto, as ações humanas abrigam
um alto índice de insensatez, estupidez, ignorância, preconceito,
irracionalidade. As guerras são o melhor exemplo. Os que ganham
não são os soldados. São os políticos e as indústrias de armamentos.
Quanto ao condicionamento é de se pensar: podemos superar?
Sartre acha que sim: “Ser livre é fazer algo do que fizeram de nós.”
Ou seja, nascemos numa pátria, numa língua, numa classe social,
numa época – e devemos nos “projetar” a partir dessas condições.
Contudo Freud não acredita muito nessa “libertação-superação”:
“Somos o que conseguimos ser”, ou seja, cada um por si e contra
todos. Apenas reagimos, dentro das condições (ou Unamuno: “Eu
sou Eu e minhas circunstâncias”.)
A superação de si é possível? A autonomia, a gestão de si
mesmo? Nietzsche é um dos que esperam essa superação: rumo
ao Além-do-homem. “O homem é uma ponte sobre o abismo.
O homem deve ser superado.” (Mas não discutiremos aqui o
anti-humanismo de Nietzsche)
Submetido à condição social: o individuo pode nascer com um
talento abstrato de um Einstein, contudo se nunca abrir um livro de
matemática, será um outro zero à esquerda. E o status social? Este
é dado pelo Capital, pela capacidade ou disponibilidade financeira.
Um professor pode ter conhecimento, mas se não tem dinheiro,
vale menos que um playboy inculto. O professor tem valor no
momento em que seu conhecimento e inteligência estiverem à
serviço do lucro, do sistema de lucro. Sua razão é meramente
“instrumental” (vide Adorno & Horkheimer)
Na cela acolchoada da condição: privilégio pra poucos. Nos que
se permitem pensar, surge um desassossego e um desconforto: o
“mal-estar na civilização” (Freud) Uma insatisfação, uma neurose.
Não adaptado, o individuo cria sua ‘fantasia’ de liberdade.
Esquece que sem uma “cura social” não há uma “cura individual”.
Ou, quando se lembra disso, resolve que ‘deve’ libertar o mundo
inteiro – torna-se líder e mártir. Paga por seu “pecado coletivo”
(como prega Teologia da Libertação. Por isso muitos monges
participaram de ações contra a ditadura militar (vide Frei Beto)
Para se livrar do condicionamento, o individuo deve ser autônomo,
gerir a si mesmo, não esperar ordem de fora, do líder ou governo.
Pergunta-se como tal é possível, uma vez que somos seres coletivos,
toda psicologia é social, vivemos em estado gregário e em busca
de prazeres, que pressupõe o Outro, o corpo do outro, a vontade
do Outro. Quem joga com quem? Ainda mais que o desejo é um
impulso irracional, insaciável, e o irracional uma vez solto, eis o caos...
A autoridade então surge como uma forma de contenção (logo
interiorizada: vide o Superego, em Freud) ao determinar o que
tu podes e o que tu deves – os direitos e os deveres. Regra mestra
de qualquer sociedade que se diga civilizada. A autoridade define
os limites da ação e o bem-estar coletivo. É possível viver sem
autoridade? “Sem Deus tudo é permitido” (Dostoiévski) Então,
eis a solução: “Sorria, você está sendo filmado”, pois se não temos
o olho divino, temos o olhar eletrônico das câmeras do Big Brother,
o Grande Irmão.
Claro que existem os críticos da autoridade: vejam a Escola de
Frankfurt (Adorno, Horkheimer, Marcuse, E. Fromm e outros)
Que desenvolvem o tema da “personalidade autoritária” e “o
medo à liberdade”. Mas confundem “autoridade” com “autoritarismo”.
(É o mesmo que confundir “liberdade” e “libertinagem”.)
A importância da autonomia está no situar-se, no impor-se diante
das arbitrariedades do “autoritarismo”, não se deixar arrastar.
Contudo, a ‘autonomia’, o ‘pensamento criativo’, o ‘pensar abstrato’
é desestimulado. Tudo agora é áudio-visual, revistinha em quadrinhos,
gráficos, e toda leitura é menosprezda, taxada logo de tediosa,
pretensiosa. Onde encontrar os que pensam por si mesmos?
Os que pensam por si mesmos: somos livres para pensar? Não
exatamente. A menos que produza lucro. Um best-seller, por exemplo.
Para ganhar um Nobel, outro exemplo. A criatividade é elogiada
quando voltada para o marketing, para o mercado da publicidade,
ao inventarem bons jingles e fotos de out-doors (ah, quantos poetas
bebem no neo-concretismo da publicidade!)
Outro exemplo: os processos seletivos de RH (Recursos Humanos)
Há todo um perfil pré-determinado de ‘profissional’. Quem não se
encaixa é eliminado do processo, daí o ‘seletivo’ – a “seleção natural”
teorizada por Darwin? O ‘mercado de trabalho’ seletivamente elimina
quem não se encaixa, não se adapta aos padrões esperados. Não julgam
o livre-pensar, mas o trabalho em grupo, a obediência, o menor nível
de exigências, os mais ajustáveis. Se querem alguém criativo é sob
critérios utilitaristas – o artista é aceito, desde que dê lucro. “seja criativo –
ganhe dinheiro!”
(continua)

Por
Leonardo de Magalhaens

leonardo_de_magalhaens@yahoo.com.br

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