quinta-feira, 27 de março de 2008

DEMOCRACIA E EDUCAÇÃO

“O objetivo da Educação é desenvolver em cada indivíduo toda a

perfeição de que ele é capaz” (Kant)

O regime democrático baseia-se na existência da vontade popular,

da participação e intervenção da sociedade civil, constituída de “cidadãos”.

O que é cidadão? Um indivíduo e um ser social. Capaz de ser responsável

por si mesmo e pela coletividade. Independente e, ao mesmo tempo,

engajado. Não exatamente partidário, mas informado sobre os andamentos

da vida política.

Como se formariam esses “cidadãos”? Através da socialização e das

interações múltiplas na vida social. A Família e a Escola como ‘espaços

de socialização’ e de convivência e aprendizado. Assim, a Educação se

mostra de suma importância para a formação do cidadão enquanto pessoa

e enquanto ser social, assim, ser humano integral, nos âmbitos do particular

e do coletivo. O dever do Estado é universalizar o ensino (principalmente

a escolaridade básica)

Independente de crença, cor ou classe social, a Educação visa disponi-

bilizar ao indivíduo todos os meios de informação e aprendizado para que

ele se torne um cidadão. Possa compreender o mundo ao seu redor, e atuar

neste mundo – sem ser guiado pelo mundo, mas co-participando. Não

viver à margem, mas acatando regras que se justificam pela construção do

bem-estar social. O indivíduo é livre na medida em que não agride os demais

indivíduos em pessoa ou coletivo. (A desculpa de “responsabilidade delegada”

própria de ordens recebidas – como nas Hierarquias – é apenas “má fé” e

atesta o quanto o sistema “quem manda e quem obedece” é prejudicial ao

regime democrático.)

A figura do professor enquanto orientador, e não “dono da verdade” é

primordial para a criação de simpatia e respeito ideais ao aprendizado. Nada

de imposições e ‘decorebas’, mas “construção coordenada do conhecimento”,

a partir de observações da realidade e abstrações co uso de conceitos e imagens

mentais. Desde a linguagem até o raciocínio matemático e apreensão de tem-

poralidade – que o ensino de História propicia – o(a) aluno(a) passa por um

desenvolvimento de suas habilidades e potencialidades, orientado(a) pelo

Professor(a), não impostas de fora para dentro – como se o conhecimento

fosse uma pílula que os alunos devem ingerir.

Infelizmente, o “sistema educacional” atualmente nas ditas “democracias

liberais” tem se voltado para os imperativos do Mercado, no sentido de

‘produzir’ profissionais de acordo com a Demanda das empresas e serviços.

Sem cuidar da ‘equalização social’, assim, mantém um vetor de exclusão. A

Educação passa a estar à serviço do Mercado.

Contudo, a Educação não é ‘mercadoria’. É a formação de um ser humano

enquanto cidadão, enquanto eleitor, enquanto formador de opinião, enquanto

co-responsável por sua comunidade e conseqüente bem-estar social. Não

apenas ‘profissional’,não apenas ‘especialista’, mas agente individual de uma

coletividade. É responsável na esfera particular e na coletividade. A Educação

não para ‘fins utilitários’, mas para a criação do ‘homem integral’.

Mas as escolas não formam “cidadãos”, mas “vestibulandos”, e as facul-

dades não formam “cidadãos”, mas “especialistas”, o que leva a um empo-

brecimento humano, uma ausência de cultura geral, um desconhecimento

da vida social e dos trâmites legais que regem a coletividade. Mais preocu-

pados em decorar fórmulas e datas, e tabelas, os alunos não são informados

sobre as leis, a Constituição, os poderes locais e nacionais, os governantes e

suas atribuições. (Temos hoje alfabetizados, mas totalmente “analfabetos

políticos”)

Segundo escrevi em ensaio anterior (“Democracia e Mídia”) a Educação

é o melhor antídoto contra a Mídia. Uma Mídia que é uma “indústria cultural”,

cuja mercadoria são mentiras transformadas em verdades e banalidades apre-

sentadas como promessas de felicidade. (Até os supérfluos se tornam

‘necessidade’!) A Educação enquanto processo e formação do cidadão.

Com acesso ao saber e educação permanente. Pois a Educação “libertária”

é a educação para o diálogo e para a tolerância. Sem idealizações, sem

‘quebras de hierarquia’.

É necessária a “hierarquia” Professor-Aluno, uma vez sendo necessária

a Autoridade de quem ensina. “Autoridade” não é “autoritarismo” (assim

como “Liberdade” não é “libertinagem”). Não que o Professor seja o

“dono do saber”. A Autoridade provém do amadurecimento, da idade e

do cargo – afinal é o Professor quem orienta o Aluno e não o contrário.

Uma “quebra da hierarquia” gera a indisciplina e a irreverência (com o

conseqüente desrespeito à pessoa do mestre. Figura – segundo Freud –

necessária como prolongamento da “autoridade paterna”, que orienta e

estabelece limites)

No mais, o “sistema educacional” precisa ser voltado para a vida prática.

Ministrando paralelamente o ensino universalista e o ensino prático (profis-

sionalizante ou não). É importante tanto conhecer as etapas da “Revolução

Francesa” quanto o funcionamento e a composição da Câmara Municipal.

É importante conhecer as figuras históricas, assim como é essencial

conhecer os perfis dos governantes atuais.

Evitar que a prática pedagógica seja guiada por interesses políticos. A

‘educação política’ não significa ser voltada para uma linha partidária (assim

como o ensino religioso deve ser pluralista e não apenas do catolicismo

romano ou protestantismo), mas possibilitando o conhecimento da vida

social, com seus tramites burocráticos, as leis constitucionais, os direitos e

deveres dos cidadãos. (Cidadãos não podem alegar que cometeram um

crime porque ele/ela não sabiam! Todos devem ser informados sobre os

limites da liberdade, em sua dupla face de direitos e deveres)

Caso contrário, teremos gerações e gerações de “analfabetos políticos”,

cordeiros dóceis que somente se lembram de política quando são obrigados

a participar das eleições. (Se o voto não fosse obrigatório, a abstenção seria

altíssima! Mostra que o “analfabeto político” não reconhece o voto com

‘direito’ – sendo mais ‘imposição’ do que ‘conquista social’. A lembrar que

antes somente os de rendas elevadas tinham permissão de vôo, além da total

exclusão do voto feminino.)

Se a Democracia não for vista como uma conquista, uma ‘construção’,

mas vista como um ‘regime imposto’, não passará de mais um fracasso a

ser jogado na “lata de lixo da História”.

Jan/08

Leonardo de Magalhaens



leonardo_de_magalhaens@yahoo.com.br

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