“O objetivo da Educação é desenvolver em cada indivíduo toda a
perfeição de que ele é capaz” (Kant)
O regime democrático baseia-se na existência da vontade popular,
da participação e intervenção da sociedade civil, constituída de “cidadãos”.
O que é cidadão? Um indivíduo e um ser social. Capaz de ser responsável
por si mesmo e pela coletividade. Independente e, ao mesmo tempo,
engajado. Não exatamente partidário, mas informado sobre os andamentos
da vida política.
Como se formariam esses “cidadãos”? Através da socialização e das
interações múltiplas na vida social. A Família e a Escola como ‘espaços
de socialização’ e de convivência e aprendizado. Assim, a Educação se
mostra de suma importância para a formação do cidadão enquanto pessoa
e enquanto ser social, assim, ser humano integral, nos âmbitos do particular
e do coletivo. O dever do Estado é universalizar o ensino (principalmente
a escolaridade básica)
Independente de crença, cor ou classe social, a Educação visa disponi-
bilizar ao indivíduo todos os meios de informação e aprendizado para que
ele se torne um cidadão. Possa compreender o mundo ao seu redor, e atuar
neste mundo – sem ser guiado pelo mundo, mas co-participando. Não
viver à margem, mas acatando regras que se justificam pela construção do
bem-estar social. O indivíduo é livre na medida em que não agride os demais
indivíduos em pessoa ou coletivo. (A desculpa de “responsabilidade delegada”
própria de ordens recebidas – como nas Hierarquias – é apenas “má fé” e
atesta o quanto o sistema “quem manda e quem obedece” é prejudicial ao
regime democrático.)
A figura do professor enquanto orientador, e não “dono da verdade” é
primordial para a criação de simpatia e respeito ideais ao aprendizado. Nada
de imposições e ‘decorebas’, mas “construção coordenada do conhecimento”,
a partir de observações da realidade e abstrações co uso de conceitos e imagens
mentais. Desde a linguagem até o raciocínio matemático e apreensão de tem-
poralidade – que o ensino de História propicia – o(a) aluno(a) passa por um
desenvolvimento de suas habilidades e potencialidades, orientado(a) pelo
Professor(a), não impostas de fora para dentro – como se o conhecimento
fosse uma pílula que os alunos devem ingerir.
Infelizmente, o “sistema educacional” atualmente nas ditas “democracias
liberais” tem se voltado para os imperativos do Mercado, no sentido de
‘produzir’ profissionais de acordo com a Demanda das empresas e serviços.
Sem cuidar da ‘equalização social’, assim, mantém um vetor de exclusão. A
Educação passa a estar à serviço do Mercado.
Contudo, a Educação não é ‘mercadoria’. É a formação de um ser humano
enquanto cidadão, enquanto eleitor, enquanto formador de opinião, enquanto
co-responsável por sua comunidade e conseqüente bem-estar social. Não
apenas ‘profissional’,não apenas ‘especialista’, mas agente individual de uma
coletividade. É responsável na esfera particular e na coletividade. A Educação
não para ‘fins utilitários’, mas para a criação do ‘homem integral’.
Mas as escolas não formam “cidadãos”, mas “vestibulandos”, e as facul-
dades não formam “cidadãos”, mas “especialistas”, o que leva a um empo-
brecimento humano, uma ausência de cultura geral, um desconhecimento
da vida social e dos trâmites legais que regem a coletividade. Mais preocu-
pados em decorar fórmulas e datas, e tabelas, os alunos não são informados
sobre as leis, a Constituição, os poderes locais e nacionais, os governantes e
suas atribuições. (Temos hoje alfabetizados, mas totalmente “analfabetos
políticos”)
Segundo escrevi em ensaio anterior (“Democracia e Mídia”) a Educação
é o melhor antídoto contra a Mídia. Uma Mídia que é uma “indústria cultural”,
cuja mercadoria são mentiras transformadas em verdades e banalidades apre-
sentadas como promessas de felicidade. (Até os supérfluos se tornam
‘necessidade’!) A Educação enquanto processo e formação do cidadão.
Com acesso ao saber e educação permanente. Pois a Educação “libertária”
é a educação para o diálogo e para a tolerância. Sem idealizações, sem
‘quebras de hierarquia’.
É necessária a “hierarquia” Professor-Aluno, uma vez sendo necessária
a Autoridade de quem ensina. “Autoridade” não é “autoritarismo” (assim
como “Liberdade” não é “libertinagem”). Não que o Professor seja o
“dono do saber”. A Autoridade provém do amadurecimento, da idade e
do cargo – afinal é o Professor quem orienta o Aluno e não o contrário.
Uma “quebra da hierarquia” gera a indisciplina e a irreverência (com o
conseqüente desrespeito à pessoa do mestre. Figura – segundo Freud –
necessária como prolongamento da “autoridade paterna”, que orienta e
estabelece limites)
No mais, o “sistema educacional” precisa ser voltado para a vida prática.
Ministrando paralelamente o ensino universalista e o ensino prático (profis-
sionalizante ou não). É importante tanto conhecer as etapas da “Revolução
Francesa” quanto o funcionamento e a composição da Câmara Municipal.
É importante conhecer as figuras históricas, assim como é essencial
conhecer os perfis dos governantes atuais.
Evitar que a prática pedagógica seja guiada por interesses políticos. A
‘educação política’ não significa ser voltada para uma linha partidária (assim
como o ensino religioso deve ser pluralista e não apenas do catolicismo
romano ou protestantismo), mas possibilitando o conhecimento da vida
social, com seus tramites burocráticos, as leis constitucionais, os direitos e
deveres dos cidadãos. (Cidadãos não podem alegar que cometeram um
crime porque ele/ela não sabiam! Todos devem ser informados sobre os
limites da liberdade, em sua dupla face de direitos e deveres)
Caso contrário, teremos gerações e gerações de “analfabetos políticos”,
cordeiros dóceis que somente se lembram de política quando são obrigados
a participar das eleições. (Se o voto não fosse obrigatório, a abstenção seria
altíssima! Mostra que o “analfabeto político” não reconhece o voto com
‘direito’ – sendo mais ‘imposição’ do que ‘conquista social’. A lembrar que
antes somente os de rendas elevadas tinham permissão de vôo, além da total
exclusão do voto feminino.)
Se a Democracia não for vista como uma conquista, uma ‘construção’,
mas vista como um ‘regime imposto’, não passará de mais um fracasso a
ser jogado na “lata de lixo da História”.
Jan/08
Leonardo de Magalhaens
leonardo_de_magalhaens@yahoo.com.br
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