quinta-feira, 27 de março de 2008

DEMOCRACIA E HIERARQUIA

A necessidade de formalizar e racionalizar as atividades e

autoridades nas sociedades pós-industriais, levou a divisão do

trabalho segundo um “princípio de hierarquia”, com uma

segmentação de responsabilidades e impessoalidade dos serviços.

Encontramos uma análise dessa “burocratização” (Teoria da

Burocracia) n obra do sociólogo alemão Max Weber, que se

ocupou em mostrar a funcionalidade e eficiência do sistema

burocrático. Com acerto em muitos pontos, Weber, contudo,

se esqueceu (ou não preveu) as ‘disfunções’ da burocracia, como

são exemplos a resistência às mudanças, o excesso de formalismo

e a exibição de sinais de autoridade. Ou seja, a burocracia ao

contrário de se tornar meio para uma melhor administração dos

serviços, tornou-se um fim em si mesma, tornou-se razão de ser.

Passou a delegar cargos e controlar os cidadãos, com contrário,

de ser controlada pelo povo, ao qual deve servir sempre.

A Burocracia, com sua hierarquia, mantém a massa popular

afastada dos centros de decisão. É esse o cerne da argumentação.

Tal quadro ainda é mais explícito em sistemas de “estatismo”,

onde o Estado sofre um ‘agigantamento’, como se afiguram o

Estado Bolchevique, engendrado por Lênin e superdimensionado

por Stálin e sua burocracia tecnocrata. Um Estado que guia, controla

e vigia os cidadãos, estando acima deles. O mesmo que desejava

Mussolini com seu “estado fascista (com nada cima, nem fora,

nem contra o Estado) ou o Estado centralizado ao estilo Nazista

(Alemanha, 1933-1945), onde o cidadão torna-se mera engrenagem

ao bel-prazer das elites estatais. Essas amostras bem explicitam o

que se entende por “formalismo excessivo” e “exibição de

autoridade”.

Todos esses “estados totalitários” seriam, no entanto, impôs-

sibilitados se não contassem com o apoio de outra forma hierárquica:

a militar. Uma pesquisa apurada mostra o quanto a estruturação dos

partidos extremistas (que passam a ser o Estado quando vitoriosos)

se baseia num sistema de “quem manda e quem obedece”, que faz

a glória das forças armadas. Organizadas como milícias, os partidários

são levados ao poder como uma demonstração de força e estabilidade:

o ‘ideal autoritário’.

Esse ideal de Autoridade acaba por criar um clima de arrogância

nos que mandam e uma resignada submissão nos que obedecem.

Deixa de haver uma possibilidade de diálogo e adequação (isto é,

mudança e flexibilidade), uma vez que as decisões caem de cima,

sem sondagens junto aos desejos das bases políticas. Sendo reféns

do Partido-Estado e do grande Líder, os cidadãos vivem num cárcere

ao ar livre, sob ameaça e vigilância. (Qualquer semelhança com “1984

de George Orwell, não é mera coincidência)

Esse formalismo acaba por sepultar a “meritocracia” (tão elogiada

por Weber) quando não se destaca por mérito, mas por obediência

às vontades dos superiores hierárquicos. (O que desculpou muita

gente no Tribunal de Nuremberg, quando os criminosos nazistas

foram julgados, e alegavam “seguir s ordens”) A servidão toma o

lugar da consciência, onde o funcionário torna-se engrenagem de

vontades outras, assim como um soldado atira pois recebeu ordens

de seu oficial, que recebe ordens de seu general, que por sua vez,

obedece ao amado líder!

Esse sistema de hierarquia absorve a responsabilidade individual.

A vontade pessoal imerge numa vontade coletiva (ou dita ‘coletiva’)

que nada mais é do que a vontade do Líder e/ou do Partido-Estado.

A burocracia, com sua hierarquia e sua eficiência, ficam à serviço de

interesses externos ao bem-estar popular, mas submissos ao jogo do

poder. É a traição dos burocratas. (Os porcos que se aliam aos

homens na alegoria “Animal Farm” (Revolução dos Bichos) também

do autor G. Orwell)

Com a desculpa de atuarem para a “manutenção da Ordem”

sem a qual não há “trabalho e progresso”, as Forças Armadas, os

militares, não hesitam em usar a força para controlarem os instru-

mentos de poder, usurpando o governo civil, muitas vezes demo-

craticamente eleito.

Como um poder paralelo – pois segue regras próprias – as Forças

Armadas somente deixam os seus quartéis para instituírem um regime

autoritário e de exceção, que nunca respeita os direitos básicos do

cidadão. Geralmente, os militares se dizem contra os “extremismos

de Esquerda”, mas, por sua vez, criam um extremismo de “Direita”,

com as marcas profundas deixadas pelos governos militares na América

Latina e na África. As ditaduras militares bem demonstram do que

são capazes os militares com sua doutrina da segurança a qualquer

preço, passando por cima da dignidade humana, da pessoa jurídica

e da sociedade civil organizada.

O desrespeito para com a vontade popular é patente nos sistemas

hierárquicos, onde o indivíduo vale como ‘engrenagem’ não como

digno de respeito e beneficiário do bem-estar social. O Estado ou a

Ordem mostrado(s) em sublime posição, a ser idolatrado e protegido,

como padrão de conduta, e quem se desvia um palmo das metas

estatais e/ou militares é logo rotulado como “subversivo”, ou

“dissidente”, ou “comunista”, ou “reacionário”, e logo entregues

aos “órgãos repressores”, aos carrascos, para redoutrinação, tortura

e morte.

Com superioridade armada sobre o cidadão desarmado (como

bem demonstram as campanhas de desarmamento levadas ao extremo

por líderes nazistas, como forma de “monopólio da força armada

pelo Estado”), os militares estão sempre prontos para acuarem as

lideranças populares, os sindicatos, a sociedade civil organizada. Ainda

que alegando a “defesa da Ordem e da Pátria” contra as “forças da

subversão”. Mas qual a maior subversão do que a dos direitos funda-

mentais da pessoa humana que somente as Democracias sabem manter?

Assim, como conciliar Democracia (vontade popular) com Hierarquia

(vontade do poder)? Como controlar os mecanismos hierárquicos sem

ser controlado por estes mecanismos? Como podem os cidadãos se

informarem sobre as atividades da rotina burocrática e das movimen-

tações das forças armadas? Como pode um governo civil se manter

sem ser “refém” de seus sistemas hierárquicos que atuam paralela-

mente? (É essa uma inquietação presente nos escritos de Nicolau

Machiavelli (Maquiavel), em sua obra de 1515, “O Príncipe”)

Jan/08

Por Leonardo de Magalhaens

leonardo_de_magalhaens@yahoo.com.br

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