quinta-feira, 27 de março de 2008

DEMOCRACIA E PLURALIDADE

Um desafio nas sociedades atuais, pós-modernas (como dizem) é

a de congregar “gregos e troianos”, isto é, tentar articular políticas que

agradem a todos (ao menos, ao maior número possível de cidadãos) no

intuito de manter o bem-estar social e moderar os conflitos através do

diálogo democrático.

Em sociedades ditas “fechadas”, por regimes autocráticos ou teo-

cráticos, os cidadãos seguem toda uma padronização de comportamento

(e até de vestimenta) que determina as posições sociais, as hierarquias e

os níveis de renda e consumo. Não há muita alternativa ao status quo,

ao establishment. Ou o cidadão se encaixa ou está excluído, marginalizado,

até eliminado.

Diferentemente, nas sociedades “abertas” há um excesso de alter-

nativas. Até porque os modos alternativos (ditos assim) já são previstos

pelo ‘padrão’. O desvio já é esperado e cooptado. Se o cidadão se

imagina ‘diferente’, ‘divergente’, logo encontrará toda uma linha de

produção voltada para a sua “divergência”, ou (mais vulgarmente)

“rebeldia”.

Um dos motivos é a liberalização do comércio que, sem controle,

dispõe-se a comercializar tudo. Mas o regime de livre-expressão é

essencial para a proliferação de alternativos. O cidadão tendo permissão

para se manifestar e expor suas idéias e criar seu estilo de vida propicia

uma maior renovação aos coletivos, com o incentivo da criatividade e

da livre iniciativa.

O que é analisado é a ‘comercialização do alternativo’. O item

“rebeldia” como mais um produto na prateleira. O item “pluralidade”

como uma oferta de liquidação. Pois, se analisando de outros ângulos,

o “multiculturalismo” não é lá muito respeitado. Seja questão de cor,

escolha sexual, estilo musical, tradição religiosa ou estilo de vestimenta,

os “alternativos” enfrentam o preconceito e a “opinião pública” –

contudo sem serem apedrejados!

Proclamada como vantagem democrática, a livre expressão só é

possível devido ao diálogo e a tolerância (desde Voltaire: “Posso não

concordar com o que você diz, mas tudo farei para que você possa

dizer”), que somente é possível nas sociedades democráticas pluralistas.

Um exemplo é a sociedade norte-americana, democrática desde as

origens, aceitando ondas de imigrantes, que criaram uma pluralidade

cultural, e instituíram uma necessidade de coexistência sob o abrigo das

leis, que defende os direitos fundamentais e devem ser iguais para todos.

Essa “igualdade perante a lei” é que legitima a política do “multi-

culturalismo” (que hoje é mais demagogia do “politicamente correto”),

onde uma pessoa não pode ser discriminada por sua crença, por sua cor,

por sua opção sexual, por seu estilo de roupa ou corte de cabelo, ou

gosto musical. Essa aceitação da “diversidade” nem sempre é aceita

no cotidiano e enfrenta uma malha de preconceitos e censuras (algumas

válidas, outras não).

Parece então que somente quando o Mercado cuida da “divergência”

é que a coisa se torna aceitável! Um tipo de corte de cabelo causa risos,

mas espere até que seja novidade no melhor salão de beleza do bairro!

Ou uma roupa é ‘esquisita’, imagine então quando aparece um modelito

semelhante no desfile de moda do mais famoso estilista da região.

Tornou-se produto: acabou-se o mal-estar!

Assim temos hoje os vários estilos de corte de cabelo, de roupa, de

acessórios, de visual (os ‘new looks’), de gosto musical, e etc, quando se

cria um novo “segmento de mercado”, com “consumidores em potencial”

para aquela estranha “divergência”. Assim, os roqueiros causaram des-

conforto, mas depois de 50 anos são agora banais. Virou moda. Os

clubbers’ causaram furor 15 anos atrás, agora são banais. Está tudo nas

botiques, nos brechós. Desde que não agridam as leis (com porte de

drogas ou armas) os ‘esquisitos’ não são incomodados.

Desde que se possa consumir, as “rebeldias” são toleradas e nutridas,

com as mais diversas influências e ‘colagens’, como manda toda boa

multiplicidade. Numa sociedade multi-étnica e multi-funcional, os

cidadãos têm acesso aos recantos mais tradicionais e aos cultos e

shows os mais bizarros (quer-se dizer “excêntricos”, afinal, sejamos

“politicamente corretos”) onde as miscigenações são constantes e

os ‘crossovers’ (cruzamentos) de estilos os mais inusitados. Sincretismos

religiosos e diversidade de estilos criam ambientes de trocas e perdas,

de assimilações e mutações.

Numa feira de variedades pode-se encontrar roqueiros gospel, ou

rappers muçulmanos, ou góticos skatistas, ou hippies artesãos, ou

capoeiristas em exibição, ou brancos com camisetas de Bob Marley,

ou negros com camisetas de bandas nórdicas racistas, ou pós-punks de

gravata, ou estudantes de cabelo colorido, ou ativistas de tênis de cores

díspares, ou traficantes de droga com Bíblias recheadas de baseado, ou

religiosos com CD de música gospel, ou os hari-khrishna com hinos

meditativos, ou freiras fazendo compras, ou ex-comunistas vendendo

LPs do Geraldo Vandré, ou neo-cyber-punks se submetendo à tatuagens

3-D, ou colecionadores de moedas com sandálias de cangaceiros. Ou

seja, a pluralidade do mundo até quase espanta – ainda que seja menos

tediosa que a padronização, a ‘uniformização’ literal que se observa nos

sistemas “fechados”.

Mas tudo existe como “consumismo”, como “segmentação de

mercado”, seja para um ateu convicto, seja para um cristão fanático,

seja para um roqueiro satanista, seja para um skatista gospel, seja para um

muçulmano ou para uma freira, para um maçom discreto ou um beato

com sua barba e cajado de pastor, tudo se torna unidade na diversidade

do multiculturalismo enquanto consumo. Há uma demanda – a “diver-

gência”, a ‘esquisitice’ – e logo há oferta – surge um artesão, um artista,

depois um industriário, um comerciante, e passam a lucrar com essa

“divergência” agora tornada “alternativa” de “estilo de vida”, e sendo

tolerada, quando forma um grupo de simpatizantes e praticantes, que

interagem entre si - até se sindicalizam! –e passam a ter voz ativa.

Voz ativa que só tem ‘representatividade’ num regime democrático,

onde todo discurso deve ser livre, onde a livre-expressão deve ser ouvida

(ainda que não concordemos com a mesma), ainda que o preço a ser

pago seja a aceitação da “pluralidade” enquanto “segmento de mercado”.

Jan/08

Por Leonardo de Magalhaens



leonardo_de_magalhaens@yahoo.com.br

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