quinta-feira, 27 de março de 2008

DEMOCRACIA E EDUCAÇÃO

“O objetivo da Educação é desenvolver em cada indivíduo toda a

perfeição de que ele é capaz” (Kant)

O regime democrático baseia-se na existência da vontade popular,

da participação e intervenção da sociedade civil, constituída de “cidadãos”.

O que é cidadão? Um indivíduo e um ser social. Capaz de ser responsável

por si mesmo e pela coletividade. Independente e, ao mesmo tempo,

engajado. Não exatamente partidário, mas informado sobre os andamentos

da vida política.

Como se formariam esses “cidadãos”? Através da socialização e das

interações múltiplas na vida social. A Família e a Escola como ‘espaços

de socialização’ e de convivência e aprendizado. Assim, a Educação se

mostra de suma importância para a formação do cidadão enquanto pessoa

e enquanto ser social, assim, ser humano integral, nos âmbitos do particular

e do coletivo. O dever do Estado é universalizar o ensino (principalmente

a escolaridade básica)

Independente de crença, cor ou classe social, a Educação visa disponi-

bilizar ao indivíduo todos os meios de informação e aprendizado para que

ele se torne um cidadão. Possa compreender o mundo ao seu redor, e atuar

neste mundo – sem ser guiado pelo mundo, mas co-participando. Não

viver à margem, mas acatando regras que se justificam pela construção do

bem-estar social. O indivíduo é livre na medida em que não agride os demais

indivíduos em pessoa ou coletivo. (A desculpa de “responsabilidade delegada”

própria de ordens recebidas – como nas Hierarquias – é apenas “má fé” e

atesta o quanto o sistema “quem manda e quem obedece” é prejudicial ao

regime democrático.)

A figura do professor enquanto orientador, e não “dono da verdade” é

primordial para a criação de simpatia e respeito ideais ao aprendizado. Nada

de imposições e ‘decorebas’, mas “construção coordenada do conhecimento”,

a partir de observações da realidade e abstrações co uso de conceitos e imagens

mentais. Desde a linguagem até o raciocínio matemático e apreensão de tem-

poralidade – que o ensino de História propicia – o(a) aluno(a) passa por um

desenvolvimento de suas habilidades e potencialidades, orientado(a) pelo

Professor(a), não impostas de fora para dentro – como se o conhecimento

fosse uma pílula que os alunos devem ingerir.

Infelizmente, o “sistema educacional” atualmente nas ditas “democracias

liberais” tem se voltado para os imperativos do Mercado, no sentido de

‘produzir’ profissionais de acordo com a Demanda das empresas e serviços.

Sem cuidar da ‘equalização social’, assim, mantém um vetor de exclusão. A

Educação passa a estar à serviço do Mercado.

Contudo, a Educação não é ‘mercadoria’. É a formação de um ser humano

enquanto cidadão, enquanto eleitor, enquanto formador de opinião, enquanto

co-responsável por sua comunidade e conseqüente bem-estar social. Não

apenas ‘profissional’,não apenas ‘especialista’, mas agente individual de uma

coletividade. É responsável na esfera particular e na coletividade. A Educação

não para ‘fins utilitários’, mas para a criação do ‘homem integral’.

Mas as escolas não formam “cidadãos”, mas “vestibulandos”, e as facul-

dades não formam “cidadãos”, mas “especialistas”, o que leva a um empo-

brecimento humano, uma ausência de cultura geral, um desconhecimento

da vida social e dos trâmites legais que regem a coletividade. Mais preocu-

pados em decorar fórmulas e datas, e tabelas, os alunos não são informados

sobre as leis, a Constituição, os poderes locais e nacionais, os governantes e

suas atribuições. (Temos hoje alfabetizados, mas totalmente “analfabetos

políticos”)

Segundo escrevi em ensaio anterior (“Democracia e Mídia”) a Educação

é o melhor antídoto contra a Mídia. Uma Mídia que é uma “indústria cultural”,

cuja mercadoria são mentiras transformadas em verdades e banalidades apre-

sentadas como promessas de felicidade. (Até os supérfluos se tornam

‘necessidade’!) A Educação enquanto processo e formação do cidadão.

Com acesso ao saber e educação permanente. Pois a Educação “libertária”

é a educação para o diálogo e para a tolerância. Sem idealizações, sem

‘quebras de hierarquia’.

É necessária a “hierarquia” Professor-Aluno, uma vez sendo necessária

a Autoridade de quem ensina. “Autoridade” não é “autoritarismo” (assim

como “Liberdade” não é “libertinagem”). Não que o Professor seja o

“dono do saber”. A Autoridade provém do amadurecimento, da idade e

do cargo – afinal é o Professor quem orienta o Aluno e não o contrário.

Uma “quebra da hierarquia” gera a indisciplina e a irreverência (com o

conseqüente desrespeito à pessoa do mestre. Figura – segundo Freud –

necessária como prolongamento da “autoridade paterna”, que orienta e

estabelece limites)

No mais, o “sistema educacional” precisa ser voltado para a vida prática.

Ministrando paralelamente o ensino universalista e o ensino prático (profis-

sionalizante ou não). É importante tanto conhecer as etapas da “Revolução

Francesa” quanto o funcionamento e a composição da Câmara Municipal.

É importante conhecer as figuras históricas, assim como é essencial

conhecer os perfis dos governantes atuais.

Evitar que a prática pedagógica seja guiada por interesses políticos. A

‘educação política’ não significa ser voltada para uma linha partidária (assim

como o ensino religioso deve ser pluralista e não apenas do catolicismo

romano ou protestantismo), mas possibilitando o conhecimento da vida

social, com seus tramites burocráticos, as leis constitucionais, os direitos e

deveres dos cidadãos. (Cidadãos não podem alegar que cometeram um

crime porque ele/ela não sabiam! Todos devem ser informados sobre os

limites da liberdade, em sua dupla face de direitos e deveres)

Caso contrário, teremos gerações e gerações de “analfabetos políticos”,

cordeiros dóceis que somente se lembram de política quando são obrigados

a participar das eleições. (Se o voto não fosse obrigatório, a abstenção seria

altíssima! Mostra que o “analfabeto político” não reconhece o voto com

‘direito’ – sendo mais ‘imposição’ do que ‘conquista social’. A lembrar que

antes somente os de rendas elevadas tinham permissão de vôo, além da total

exclusão do voto feminino.)

Se a Democracia não for vista como uma conquista, uma ‘construção’,

mas vista como um ‘regime imposto’, não passará de mais um fracasso a

ser jogado na “lata de lixo da História”.

Jan/08

Leonardo de Magalhaens



leonardo_de_magalhaens@yahoo.com.br

DEMOCRACIA E PLURALIDADE

Um desafio nas sociedades atuais, pós-modernas (como dizem) é

a de congregar “gregos e troianos”, isto é, tentar articular políticas que

agradem a todos (ao menos, ao maior número possível de cidadãos) no

intuito de manter o bem-estar social e moderar os conflitos através do

diálogo democrático.

Em sociedades ditas “fechadas”, por regimes autocráticos ou teo-

cráticos, os cidadãos seguem toda uma padronização de comportamento

(e até de vestimenta) que determina as posições sociais, as hierarquias e

os níveis de renda e consumo. Não há muita alternativa ao status quo,

ao establishment. Ou o cidadão se encaixa ou está excluído, marginalizado,

até eliminado.

Diferentemente, nas sociedades “abertas” há um excesso de alter-

nativas. Até porque os modos alternativos (ditos assim) já são previstos

pelo ‘padrão’. O desvio já é esperado e cooptado. Se o cidadão se

imagina ‘diferente’, ‘divergente’, logo encontrará toda uma linha de

produção voltada para a sua “divergência”, ou (mais vulgarmente)

“rebeldia”.

Um dos motivos é a liberalização do comércio que, sem controle,

dispõe-se a comercializar tudo. Mas o regime de livre-expressão é

essencial para a proliferação de alternativos. O cidadão tendo permissão

para se manifestar e expor suas idéias e criar seu estilo de vida propicia

uma maior renovação aos coletivos, com o incentivo da criatividade e

da livre iniciativa.

O que é analisado é a ‘comercialização do alternativo’. O item

“rebeldia” como mais um produto na prateleira. O item “pluralidade”

como uma oferta de liquidação. Pois, se analisando de outros ângulos,

o “multiculturalismo” não é lá muito respeitado. Seja questão de cor,

escolha sexual, estilo musical, tradição religiosa ou estilo de vestimenta,

os “alternativos” enfrentam o preconceito e a “opinião pública” –

contudo sem serem apedrejados!

Proclamada como vantagem democrática, a livre expressão só é

possível devido ao diálogo e a tolerância (desde Voltaire: “Posso não

concordar com o que você diz, mas tudo farei para que você possa

dizer”), que somente é possível nas sociedades democráticas pluralistas.

Um exemplo é a sociedade norte-americana, democrática desde as

origens, aceitando ondas de imigrantes, que criaram uma pluralidade

cultural, e instituíram uma necessidade de coexistência sob o abrigo das

leis, que defende os direitos fundamentais e devem ser iguais para todos.

Essa “igualdade perante a lei” é que legitima a política do “multi-

culturalismo” (que hoje é mais demagogia do “politicamente correto”),

onde uma pessoa não pode ser discriminada por sua crença, por sua cor,

por sua opção sexual, por seu estilo de roupa ou corte de cabelo, ou

gosto musical. Essa aceitação da “diversidade” nem sempre é aceita

no cotidiano e enfrenta uma malha de preconceitos e censuras (algumas

válidas, outras não).

Parece então que somente quando o Mercado cuida da “divergência”

é que a coisa se torna aceitável! Um tipo de corte de cabelo causa risos,

mas espere até que seja novidade no melhor salão de beleza do bairro!

Ou uma roupa é ‘esquisita’, imagine então quando aparece um modelito

semelhante no desfile de moda do mais famoso estilista da região.

Tornou-se produto: acabou-se o mal-estar!

Assim temos hoje os vários estilos de corte de cabelo, de roupa, de

acessórios, de visual (os ‘new looks’), de gosto musical, e etc, quando se

cria um novo “segmento de mercado”, com “consumidores em potencial”

para aquela estranha “divergência”. Assim, os roqueiros causaram des-

conforto, mas depois de 50 anos são agora banais. Virou moda. Os

clubbers’ causaram furor 15 anos atrás, agora são banais. Está tudo nas

botiques, nos brechós. Desde que não agridam as leis (com porte de

drogas ou armas) os ‘esquisitos’ não são incomodados.

Desde que se possa consumir, as “rebeldias” são toleradas e nutridas,

com as mais diversas influências e ‘colagens’, como manda toda boa

multiplicidade. Numa sociedade multi-étnica e multi-funcional, os

cidadãos têm acesso aos recantos mais tradicionais e aos cultos e

shows os mais bizarros (quer-se dizer “excêntricos”, afinal, sejamos

“politicamente corretos”) onde as miscigenações são constantes e

os ‘crossovers’ (cruzamentos) de estilos os mais inusitados. Sincretismos

religiosos e diversidade de estilos criam ambientes de trocas e perdas,

de assimilações e mutações.

Numa feira de variedades pode-se encontrar roqueiros gospel, ou

rappers muçulmanos, ou góticos skatistas, ou hippies artesãos, ou

capoeiristas em exibição, ou brancos com camisetas de Bob Marley,

ou negros com camisetas de bandas nórdicas racistas, ou pós-punks de

gravata, ou estudantes de cabelo colorido, ou ativistas de tênis de cores

díspares, ou traficantes de droga com Bíblias recheadas de baseado, ou

religiosos com CD de música gospel, ou os hari-khrishna com hinos

meditativos, ou freiras fazendo compras, ou ex-comunistas vendendo

LPs do Geraldo Vandré, ou neo-cyber-punks se submetendo à tatuagens

3-D, ou colecionadores de moedas com sandálias de cangaceiros. Ou

seja, a pluralidade do mundo até quase espanta – ainda que seja menos

tediosa que a padronização, a ‘uniformização’ literal que se observa nos

sistemas “fechados”.

Mas tudo existe como “consumismo”, como “segmentação de

mercado”, seja para um ateu convicto, seja para um cristão fanático,

seja para um roqueiro satanista, seja para um skatista gospel, seja para um

muçulmano ou para uma freira, para um maçom discreto ou um beato

com sua barba e cajado de pastor, tudo se torna unidade na diversidade

do multiculturalismo enquanto consumo. Há uma demanda – a “diver-

gência”, a ‘esquisitice’ – e logo há oferta – surge um artesão, um artista,

depois um industriário, um comerciante, e passam a lucrar com essa

“divergência” agora tornada “alternativa” de “estilo de vida”, e sendo

tolerada, quando forma um grupo de simpatizantes e praticantes, que

interagem entre si - até se sindicalizam! –e passam a ter voz ativa.

Voz ativa que só tem ‘representatividade’ num regime democrático,

onde todo discurso deve ser livre, onde a livre-expressão deve ser ouvida

(ainda que não concordemos com a mesma), ainda que o preço a ser

pago seja a aceitação da “pluralidade” enquanto “segmento de mercado”.

Jan/08

Por Leonardo de Magalhaens



leonardo_de_magalhaens@yahoo.com.br

DEMOCRACIA E HIERARQUIA

A necessidade de formalizar e racionalizar as atividades e

autoridades nas sociedades pós-industriais, levou a divisão do

trabalho segundo um “princípio de hierarquia”, com uma

segmentação de responsabilidades e impessoalidade dos serviços.

Encontramos uma análise dessa “burocratização” (Teoria da

Burocracia) n obra do sociólogo alemão Max Weber, que se

ocupou em mostrar a funcionalidade e eficiência do sistema

burocrático. Com acerto em muitos pontos, Weber, contudo,

se esqueceu (ou não preveu) as ‘disfunções’ da burocracia, como

são exemplos a resistência às mudanças, o excesso de formalismo

e a exibição de sinais de autoridade. Ou seja, a burocracia ao

contrário de se tornar meio para uma melhor administração dos

serviços, tornou-se um fim em si mesma, tornou-se razão de ser.

Passou a delegar cargos e controlar os cidadãos, com contrário,

de ser controlada pelo povo, ao qual deve servir sempre.

A Burocracia, com sua hierarquia, mantém a massa popular

afastada dos centros de decisão. É esse o cerne da argumentação.

Tal quadro ainda é mais explícito em sistemas de “estatismo”,

onde o Estado sofre um ‘agigantamento’, como se afiguram o

Estado Bolchevique, engendrado por Lênin e superdimensionado

por Stálin e sua burocracia tecnocrata. Um Estado que guia, controla

e vigia os cidadãos, estando acima deles. O mesmo que desejava

Mussolini com seu “estado fascista (com nada cima, nem fora,

nem contra o Estado) ou o Estado centralizado ao estilo Nazista

(Alemanha, 1933-1945), onde o cidadão torna-se mera engrenagem

ao bel-prazer das elites estatais. Essas amostras bem explicitam o

que se entende por “formalismo excessivo” e “exibição de

autoridade”.

Todos esses “estados totalitários” seriam, no entanto, impôs-

sibilitados se não contassem com o apoio de outra forma hierárquica:

a militar. Uma pesquisa apurada mostra o quanto a estruturação dos

partidos extremistas (que passam a ser o Estado quando vitoriosos)

se baseia num sistema de “quem manda e quem obedece”, que faz

a glória das forças armadas. Organizadas como milícias, os partidários

são levados ao poder como uma demonstração de força e estabilidade:

o ‘ideal autoritário’.

Esse ideal de Autoridade acaba por criar um clima de arrogância

nos que mandam e uma resignada submissão nos que obedecem.

Deixa de haver uma possibilidade de diálogo e adequação (isto é,

mudança e flexibilidade), uma vez que as decisões caem de cima,

sem sondagens junto aos desejos das bases políticas. Sendo reféns

do Partido-Estado e do grande Líder, os cidadãos vivem num cárcere

ao ar livre, sob ameaça e vigilância. (Qualquer semelhança com “1984

de George Orwell, não é mera coincidência)

Esse formalismo acaba por sepultar a “meritocracia” (tão elogiada

por Weber) quando não se destaca por mérito, mas por obediência

às vontades dos superiores hierárquicos. (O que desculpou muita

gente no Tribunal de Nuremberg, quando os criminosos nazistas

foram julgados, e alegavam “seguir s ordens”) A servidão toma o

lugar da consciência, onde o funcionário torna-se engrenagem de

vontades outras, assim como um soldado atira pois recebeu ordens

de seu oficial, que recebe ordens de seu general, que por sua vez,

obedece ao amado líder!

Esse sistema de hierarquia absorve a responsabilidade individual.

A vontade pessoal imerge numa vontade coletiva (ou dita ‘coletiva’)

que nada mais é do que a vontade do Líder e/ou do Partido-Estado.

A burocracia, com sua hierarquia e sua eficiência, ficam à serviço de

interesses externos ao bem-estar popular, mas submissos ao jogo do

poder. É a traição dos burocratas. (Os porcos que se aliam aos

homens na alegoria “Animal Farm” (Revolução dos Bichos) também

do autor G. Orwell)

Com a desculpa de atuarem para a “manutenção da Ordem”

sem a qual não há “trabalho e progresso”, as Forças Armadas, os

militares, não hesitam em usar a força para controlarem os instru-

mentos de poder, usurpando o governo civil, muitas vezes demo-

craticamente eleito.

Como um poder paralelo – pois segue regras próprias – as Forças

Armadas somente deixam os seus quartéis para instituírem um regime

autoritário e de exceção, que nunca respeita os direitos básicos do

cidadão. Geralmente, os militares se dizem contra os “extremismos

de Esquerda”, mas, por sua vez, criam um extremismo de “Direita”,

com as marcas profundas deixadas pelos governos militares na América

Latina e na África. As ditaduras militares bem demonstram do que

são capazes os militares com sua doutrina da segurança a qualquer

preço, passando por cima da dignidade humana, da pessoa jurídica

e da sociedade civil organizada.

O desrespeito para com a vontade popular é patente nos sistemas

hierárquicos, onde o indivíduo vale como ‘engrenagem’ não como

digno de respeito e beneficiário do bem-estar social. O Estado ou a

Ordem mostrado(s) em sublime posição, a ser idolatrado e protegido,

como padrão de conduta, e quem se desvia um palmo das metas

estatais e/ou militares é logo rotulado como “subversivo”, ou

“dissidente”, ou “comunista”, ou “reacionário”, e logo entregues

aos “órgãos repressores”, aos carrascos, para redoutrinação, tortura

e morte.

Com superioridade armada sobre o cidadão desarmado (como

bem demonstram as campanhas de desarmamento levadas ao extremo

por líderes nazistas, como forma de “monopólio da força armada

pelo Estado”), os militares estão sempre prontos para acuarem as

lideranças populares, os sindicatos, a sociedade civil organizada. Ainda

que alegando a “defesa da Ordem e da Pátria” contra as “forças da

subversão”. Mas qual a maior subversão do que a dos direitos funda-

mentais da pessoa humana que somente as Democracias sabem manter?

Assim, como conciliar Democracia (vontade popular) com Hierarquia

(vontade do poder)? Como controlar os mecanismos hierárquicos sem

ser controlado por estes mecanismos? Como podem os cidadãos se

informarem sobre as atividades da rotina burocrática e das movimen-

tações das forças armadas? Como pode um governo civil se manter

sem ser “refém” de seus sistemas hierárquicos que atuam paralela-

mente? (É essa uma inquietação presente nos escritos de Nicolau

Machiavelli (Maquiavel), em sua obra de 1515, “O Príncipe”)

Jan/08

Por Leonardo de Magalhaens

leonardo_de_magalhaens@yahoo.com.br

DEMOCRACIA E IDEOLOGIA - Parte 2

Na democracia representativa, o “representante” (vereador, deputado,
senador) fala em nome da ‘base eleitoral’ que o elegeu, não em seu nome
(na “teoria democrática radical”, de Thomas Jefferson, etc) Assim o tom
arbitrário dos atuais representantes destoa muito do ideal de vontade
popular, estando os representantes distanciados de seus eleitores, e pro-
pondo leis das quais se dizem ‘donos’, como se o importante fosse
inventar leis e mais leis, e não o que o povo deseja (“Leis demais e uma
Constituição idealista não enche a barriga de ninguém”, um colunista
já ironizou) Por outro lado, as democracias ditas “populares” caíram
nas mãos de demagogos e ditadores que não hesitaram em criar ditaduras
do “partido único”, dizendo agir assim em nome do povo (vide os
‘direitistas’, fascistas, etc, e também os ‘esquerdistas’, com Mão, Pol Pot,
Ceaucescu, etc)
Contudo, em pleno “multipartidarismo” com a pluralidade de
opiniões e interesses (o partido depende das bases eleitorais, sua
legitimação depende do grau de comunicação com as mesmas e o
nível de ‘aprovação’), ocorre uma perda de legitimidade,o que permite
uma ampla manobra demagógica, onde tudo é ‘em nome do povo’, e
nada de consultar esse mesmo ‘povo’. (nota 3) E todos se dizem plenos
democratas! Até os religiosos se dizem democratas e até obviamente
os fascistas do século 21 virão dizendo-se “democratas”. É o que se
constitui um “totalitarismo retórico do discurso democrático” (vide
Chomsky, Bobbio, Kurz, Zizek, etc) onde a democracia não passa
de mais um discurso disponível no mercado.
Culpa da “democracia liberal”? Afinal, temos mercado livre, livre
expressão, liberdade de associação, imprensa livre, Estado laico,
liberdade religiosa, tudo isso, mas sem real “democracia econômica”,
onde as disparidades de renda e poder financeiro faz com que ‘os de
cima’ mandem e ‘os de baixo’ obedeçam. Como a “propaganda é a
alma do negócio” (e sabemos disso desde Goebbels!) e “é melhor
dizer que fez do que fazer” (algo de Machiavelli?), a “democracia
liberal” tornou-se mero ‘slogan’, uma bonita ‘palavra de ordem’, tipo
“lutar pela democracia” ou “morrer pela democracia” ou ainda “a
superioridade da democracia”, mas sem perguntar qual democracia!
E sem planejar como vamos construir essa “democracia”! e dizem
que já estamos exportando a democracia (digo, o Ocidente), quando
os Estados Unidos invadem nações para “exportar a democracia”,
assim na Coréia, na Indochina, no Haiti, no Afeganistão, no Iraque,
e, futuramente, no Iran), como se a democracia fosse um produto
com receituário, a ser aplicado em qualquer lugar, sem analisar o
contexto sócio-econômico! (nota 4)
O problema da democracia é o excesso de promessas. Dizer que
vai resolver tudo e trazer paz e liberdade. Mero discurso. A democracia
não deve ser baseada na “liberdade” ou na “felicidade”. Pois ‘liberdade’
não existe (“ou todo mundo é livre ou ninguém é livre”, segundo
Bakhunin), assim erguer a liberdade como estandarte é encenar outra
propaganda ideológica (sem suásticas ou foices-e-martelos). E a
felicidade? Promessas impossível, uma vez que somos insaciáveis,
insatisfeitos por condição existencial (segundo Freud e Sartre), e
felicidade não passa de promessa para as peças publicitárias (sempre
inventando novas necessidades, para que o consumo se perpetue
ad aeternum)
A democracia deve basear-se no diálogo, na representatividade
e na tolerância, pois sem pilares surgem fissuras para a discrimina-
ção e o autoritarismo, torna-se paraísos dos demagogos, com um
acúmulo de promessas não-cumpridas a gerar frustrações, a perder
a legitimidade junto às bases eleitorais, que não hesitarão em entre-
garem o poder a um grupo de ‘salvadores da pátria’. (Alguns acham
mais cômodo – e mais barato – manter uma ‘família real’, contudo
é retrocesso. A divisão de Poderes, os custos do Parlamento, as
viagens do Executivo, tudo constitui o elevado preço a se pagar
pelo equilíbrio instável da democracia.)
Se a demagogia atira a democracia nas garras dos autoritarismos,
a luta por hegemonia arrasa a legitimidade, quando os Estados
passam a pressionar (e controlar) seus cidadãos, como uma “guerra
fria” constante. É definido quem pode se pronunciar, e quem pode
protestar, num jogo de cartas marcadas onde a ‘revolta’ já está no
enredo, onde em nada poderá abalar o poder constituído, mas, ao
contrário, o fortalecendo mais, em nome da ‘segurança nacional’,
do bem-estar futuro, em que um neo-nacionalismo (em plena era
de globalização) não hesita em resvalar para um ‘xenofobismo’.
(nota 5)
Tendo em mente a complexidade do tema, este ensaio (e todos
os outros) deseja apenas uma olhada os progressos e deficiências
do viver democrático. Do mundo democrático que é preferível ao
‘autoritarismo sutil’ no qual vivemos. Democracia não existe, está
sendo construída (e se quisermos construí-la). E é de se pensar,
se a democracia, o “menos pior dos sistemas políticos”, segundo
Churchill, ainda nem se estruturou, o que esperar de sistemas ideais,
idealistas e utópicos, como são exemplos o comunismo e o
anarquismo?
fev/mar/08
Leonardo de Magalhaens

leonardo_de_magalhaens@yahoo.com.br