quinta-feira, 27 de março de 2008

DEMOCRACIA E ECOLOGIA

Umas das preocupações do novo Milênio é a tentativa de equilibrar

o discurso ecológico com o interesse econômico. Manter um nível de

produção e consumo, e ao mesmo tempo, assegurar a conservação do

meio ambiente em escala global.

Obviamente surgem dificuldades. O sistema capitalista vive da

produção e do consumo, gerando descartáveis e lixo em escala nunca

dantes vista! As pesquisas atuais levam em considerações as conversações

na Conferência Rio-92, com seus tratados que não saíram do papel, e

com as medidas paliativas da Conferência de Kyoto, a que perdeu força

devido a intransigência dos norte-americanos quanto às cotas de emissão

de carbono.

Essa necessidade de ‘preservação’, em seu aspecto “idealista”, surgiu

na geração pós-II Guerra, com seu ecologismo “peace and love” do movi-

mento hippie, do desejo de voltar à natureza, uma vez que a “civilização”

é repressora e artificial. Mas nada propunham de “alternativo” além de

um estilo de vida, dissociado do sistema econômico. Assim, muitas

dessas comunidades não puderam se manter, a menos que reduzissem

o número de agregados. Ou seja, o hippie é ‘elitista’ por excelência.

Não é um estilo de vida que possa ser estendido a toda a sociedade.

A Revolução Industrial, desde o século 18, criou um mundo sem

retorno. Qualquer ruptura seria um cataclisma.

Assim como seria um cataclismo a manutenção dos níveis de

produção e consumo. Se todos os países e povos consumissem como

os países e povos do dito Primeiro Mundo, os recursos globais já

teriam se esgotado e todos estaríamos vivendo numa enorme lata de

lixo! Logo, é hipocrisia falar em “conciliação”. Ou se aplica um freio

ao capitalismo ou se preserva a natureza. Fora isso, o “ecologismo”

seria outra ‘ideologia’ para vender produtos.

Com os problemas energéticos, toda uma gama de empresas pas-

saram a pesquisar as “fontes alternativas de energia”, como a aéolica

(a do vento), a solar (de painéis solares), dos ‘biofuels’ (tipo gás metano),

para evitar a queima dos combustíveis fósseis (o petróleo e derivados)

e o uso limpo, porém deveras perigoso, pois instável, da energia nuclear

(espectral desde o acidente de Tchernobyl, em 1986, na Ucrânia.) A

busca do “combustível ideal” apenas começou, uma vez que as com-

versações globais são no sentido de “reduzir as emissões de compostos

de carbono” que geram o chamado “efeito estufa” (greenhouse effect),

provocando uma elevação da temperatura da Terra, o famigerado

“Aquecimento Global” (Global Warming)

As conferências se sucedem (a mais atual em Durbai) como uma

epopéia diplomática, enquanto os setores particulares cooptam todo

um leque de profissionais (os técnicos em meio ambiente) para asses-

sorar as linhas de produção e diminuir os danos ambientais. Tudo muito

gradativo e paliativo. Nenhuma mudança estrutural significativa. Não

há adesão popular ao problema.

Alertadas sobre a emissão de gás carbono e excesso de queimadas e

acúmulo de lixo, as autoridades tem sido levadas à demagogia e às inter-

venções “pra inglês ver”. Pois os reflorestamentos não renovam as áreas

desmatadas, resolvendo apenas o problema da próxima geração de árvores

a serem cortadas (logo, preocupação comercial!) e os recursos hídricos

não sã preservados (uma vez que não se ‘renovam’ lençóis fleáticos e

assemelhados), o que torna mero discurso essa de “preservação das

fontes e mananciais”, quando os terrenos onde se instalam os “lixões”

sequer recebem sondagens para determinação de profundidades das

águas de subsolo.

Uma problemática que se mostra perigosa, pois recebe “tratamento”

tardio. O capitalismo não se preocupou nem um pouco com a conser-

vação, uma vez que cercou e desmatou áreas, eliminou espécies animais

e vegetais (levou muitas à extinção!), devastou regiões inteiras com ativi-

dades extrativistas mineradoras, promoveu uma produção contínua de

mercadorias que, logo descartadas, geram montes everests de lixo, que

demoram séculos para se decomporem.

O clamor pelos “biodegradáveis” bem mostra o nível de desespero

(igual a proliferação dos ‘diet’ e ‘light’ com a onda de obesidade e elevação

dos casos de enfartes) sem real mudança estrutural, uma vez que inventar

sacolinhas e garrafas biodegradáveis não resolve o problema do ‘consu-

mismo’, que é justificado para a existência da produção. Um ciclo vicioso,

portanto. Produção necessária para criar renda e emprego, e consumo

estratosférico para absorver os níveis de produção. Cada vez se produz

mais, e se consome em excesso. Ocorre aqui uma ‘necessidade’ retroali-

mentada. Ou seja, a medida que a produção cresce, “criam-se” neces-

sidades (principalmente através da propaganda comercial)

No fundo, o que ocorre? Uma preocupação com a preservação

ambiental ou uma ânsia de novos lucros? “Não me interessa ser ecológico,

desde que eu ganhe com isso”, ou ainda, “se ajudo a ecologia, tudo bem,

mas meu interesse é o lucro”, assim pensam muitos empresários,

cinicamente. Pensam na ‘biodiversidade’ como outro lucro, no paten-

teamento de ervas com fins medicinais, etc. e alegam a necessidade de

proteger a Amazônia tanto dos madeireiros e garimpeiros, quanto dos

exploradores ‘gringos’.

Muitos passam a investir em biofuels (biocombustíveis), ou em

energia solar, ou instalam hectares com hélices ao vento, ou aderem

aos “créditos de carbono”, na promessa de reduções, enquanto tonela-

das de garrafas são jogadas em rios, sem reciclagem, ou infinidades de

pneus formam colinas nos subúrbios, ou peças descartadas se acumulam

em ferro-velhos, ou oceanos de celulares usados mostram o nível de

descarte e desperdício de um sistema sem planificação.

É um quadro desolador. Somente a vontade popular pode dar

legitimidade à uma verdadeira reação. É necessário viabilizar os instru-

mentos democráticos para que as soluções possam surgir. Caso contrário,

a impossibilidade de um discurso ecológico conviver com os atuais níveis

de produção e consumo. Seria necessário frear ou planificar o atual

sistema econômico, e seu exagero de mercadorias, senão o “ecologismo”

não passará de oura ‘ideologia’, e vai parar na “lata de lixo da História”,

junto com o anarquismo, o socialismo, o bolchevismo, o movimento

hippie.

Nota: A Internet é farta em informações sobre cada uma das medidas

aqui mencionadas, daí o não aprofundamento específico sobre cada

uma. Excederia o objetivo do ensaio. A leitura dos protocolos é reco-

mendada, para constatação do lapso entre o ‘ideal’ e o ‘real’.

Jan/08

Leonardo de Magalhaens



leonardo_de_magalhaens@yahoo.com.br

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